segunda-feira, 15 de maio de 2023

Sobre Mike Davis e o Brasil


"Fronteira urbana" chegou ao fim, diz Davis

Em livro sobre "favelização" mundial, americano diz que expansão das cidades está no limite e critica políticas brasileiras

Em Nova Déli, na Índia, as favelas incham 400 mil moradores por ano. Quilômetros abaixo, em Mumbai, os favelados já somam 12 milhões de pessoas. Em proporção, o primeiro lugar fica com a Etiópia, onde 99,4% de sua população urbana mora em habitações precárias. E nos cortiços de Lima, no Peru, a média é de 93 pessoas para cada latrina.

Esses e muitos outros exemplos compõem o quadro apocalíptico do livro "Planet of Slums" (planeta das favelas), publicado neste mês nos EUA. Nele, o ensaísta Mike Davis analisa por que o fenômeno da migração para a área urbana se transformou num caos de cerca de 200 mil favelas e 1 bilhão de pessoas amontoados pelos países do Terceiro Mundo.

O Brasil e a África do Sul, com os EUA não muito longe, lideram no mundo a tentativa de substituir a segurança físico-arquitetônica para as classe médias pela justiça social aos pobres

O problema-chave, segundo Davis, é que as grandes cidades do Terceiro Mundo não estão mais crescendo empurradas pela demanda por mão-de-obra, mas se dilatando pela reprodução da miséria, sem uma resposta adequada do poder público.

O resultado é que o processo de favelização virou sinônimo de urbanização. Um dos exemplos do livro é São Paulo: em 1973, as favelas paulistanas abrigavam apenas 1,2% da população. Ao longo dos anos 1990, o salto foi para 16,4% de seus moradores.

Ex-caminhoneiro e de formação marxista, Davis, 60, ganhou notoriedade depois da publicação de "City of Quartz" (cidade do quartzo), um estudo já considerado clássico sobre a história de Los Angeles. Leia, a seguir, trechos da entrevista concedida à Folha:

 Folha - Seu novo livro descreve um processo aparentemente irreversível de favelização dos países mais pobres. Chegamos a um ponto sem volta para resolver a questão habitacional?

Mike Davis - Claramente, de acordo com especialistas em habitação de quase todos os países pobres, chegamos ao final da fronteira de áreas livres ou quase livres para ocupação. Esse é um fato da nossa época, sobretudo porque tantos governos e instituições internacionais continuam com a idéia de que o pobre tem acesso à terra e pode resolver a crise habitacional por meio de sua própria determinação e engenho. Mas o dia da ocupação heróica acabou. A ocupação tradicional, definida estritamente, é agora apenas possível em locais residuais e perigosos, onde inundação, falhas no terreno ou proximidade a depósitos tóxicos fazem com que a área seja quase sem valor, e a vida, uma constante luta contra o desastre. Em todos os outros lugares, a terra periférica é uma mercadoria -legal ou ilegalmente pertencente a especuladores, políticos ou entidades tribais que vendem a terra para residentes pobres.

As pesquisas mostram uma convergência perigosa de custos habitacionais crescentes (o fim da fronteira e da terra ocupável) com a supersaturação de setores econômicos informais

Essa "urbanização pirata", como tem sido chamada várias vezes, é efetivamente a privatização das ocupações. Pessoas muito pobres, sejam filhas da cidade ou migrantes do interior, atualmente alugam seu pequeno barraco (geralmente de moradores de favela mais antigos e ligeiramente mais ricos) ou são forçadas a construir em lugares precários ou nas regiões limítrofes, onde os custos de transporte anulam as vantagem da terra livre ou barata. Na habitação, assim como na economia informal, testemunhamos o que pode ser chamado de "marginalização dentro da marginalidade".

Folha - O sr. afirma que, em algumas cidades, já é impreciso o uso do termo periferia, pois as favelas se tornaram o centro da vida urbana. O que acontece quando uma cidade atinge esse ponto?

Davis - Ninguém sabe. A periferia, obviamente, assume diferentes formas. Em alguns casos, os pobres estão seguindo os empregos, o que, suponho é a melhor opção. Em outros casos, estão simplesmente exilados pelo alto custo das áreas ou expulsos pela renovação das favelas. O deslocamento de uma borda para o centro absorve crescente e quase insustentável quantidade de tempo e dinheiro. Em Nairóbi e em outras cidades africanas e asiáticas, os pobres gastam mais em transporte do que em moradia, medicamento ou em educação para suas crianças. O grande problema da forma urbana é esta: urbanização que não consegue criar urbanismo, que simplesmente empurra as pessoas mais para fora (consumindo valiosas terras agricultáveis e reservas ambientais no processo) e fracassa em fornecer qualquer aparato de integração da cidade tradicional. Todas as contradições da suburbanização dos países ricos se tornam exponencialmente maiores nas cidades pobres.


Folha - Recentemente o Exército interveio em algumas favelas do Rio, atraindo apoio de parte da classe média. A segurança pública deveria ser a grande prioridade?

Davis - Em primeiro lugar, "segurança pública" é uma definição enganadora. Operações militares e prisões em massa simplesmente agravam a insegurança urbana no longo prazo. Ao menos que se esteja preparado para exterminar classes inteiras de pessoas, a criminalização da desigualdade simplesmente armazena o problema em prisões desumanas, onde finalmente será exportado de volta para as ruas de uma forma mais violenta. Além disso, o crime de rua é sempre pior onde a polícia é mais corrupta e e sem regras. Os maus policiais são o maior problema criminal do mundo. Na forma como entendo o Brasil, a raiz mais profunda da "insegurança" -à parte dos níveis fantásticos de desigualdade socioeconômica- é que os pobres universalmente vêem a polícia como incorrigivelmente corrupta, predadores ao invés de protetores. A ditadura declarou guerra contra as favelas porque as viam como incubadoras da subversão; a ditadura foi substituída pela democracia burguesa, mas a guerra nas favelas tem continuado de forma incessante, e os militares mantiveram muito de sua liberdade para operar sem consideração aos direitos humanos.

Claramente o Brasil e a África do Sul, com os EUA não muito longe, lideram no mundo a tentativa de substituir a segurança físico-arquitetônica para as classe médias pela justiça social aos pobres. Obviamente, é um círculo vicioso: quanto mais as classes médias se retraem do espaço urbano público e cidadão -ou quanto mais eles permitem que a polícia e os guardas privados ajam foram da lei- mais os pobres acreditarão que a cidade está em um estado de guerra, com as gangues tão legítimas como governo quanto o Estado.

Folha - Como o sr. explica o paradoxo, identificado no seu livro, de que muitas cidades do Terceiro Mundo cresceram apesar da decadência econômica?

Davis - Ninguém pode explicar totalmente esse paradoxo, mas a resposta simples é a subdivisão da pobreza -o que chamo de "involução urbana". À medida que as pessoas se amontoam em nichos de sobrevivência informal -ambulantes, diaristas, prostituição, serviço doméstico, pequenos crimes etc.- mais pobre a massa se torna. Sei que [o economista peruano Hernando] De Soto e outros populistas neoliberais acreditam que o microempreeendedorismo pode fazer milagres, mas isso é apenas verdade em casos isolados. Sempre será possível identificar milionários que eram mendigos anos antes, mas isso negligencia o número muito maior de pessoas que eram operários e funcionários públicos e hoje são mendigos. Não há evidência em escala macro de que a economia informal é um motor de crescimento ou um futuro viável para os pobres da cidade.

O meu livro argumenta que, pelo contrário, as pesquisas mostram uma convergência perigosa de custos habitacionais crescentes (o fim da fronteira e da terra ocupável) com a supersaturação de setores econômicos informais (o problema da "involução"). Então o que acontece? O pior exemplo é Kinshasa (Congo, ex-Zaire), uma cidade com grande espírito, mas em condições indescritíveis de negligência, onde as crianças são deixadas na rua porque as famílias não podem mais ter um nível mínimo de sobrevivência.

Folha - O sr. cita um programa da administração do PT em São Paulo para mostrar o fracasso da política apoiada pelo Banco Mundial (Bird) de melhorar favelas. Por que não é um caminho viável?

Davis -As estratégias contemporâneas de habitação e desenvolvimento econômico adoram uma estratégia "de perfumaria". Deixando de lado o números de exemplos em que "favelas-modelo" financiadas pelo Bird se transformaram em tudo menos em modelo, os sucessos dessa estratégia são quase insignificantes na escala macro: levaria séculos para alcançar justiça habitacional ou "empoderamento" nesse ritmo. No melhor caso, o Bird e os governos reformistas fornecem apenas recursos suficientes para promover a mobilidade econômica de uma pequena fração da classe trabalhadora: recompensar membros do partido, cooptar possíveis ativistas e vencer a próxima eleição (ou dar a ONGs colaboradoras credenciais para restituir aos seus doadores). É um mundo de pequenas fábricas de filantropia e auto-ajuda que dificilmente faz a sociedade progredir.

Folha - . Apesar do amplo espectro ideológico dos governos do Terceiro Mundo, parece que o sr. não encontrou nenhuma política habitacional eficiente. É um sinal de que a esquerda e a direita falharam ou a culpa é sobretudo do capitalismo globalizado?

Davis -De certa forma, você me pegou aqui. A solução -de forma abstrata, pelo menos-tem de ser um sistema que preserva todos os elementos criativos de autoconstrução com um aumento radical de investimento social (na forma de compra de materiais, serviços de engenharia e desenvolvimento de infra-estrutura). Não há uma forma prática de solucionar a crise urbana em lugar nenhum sem uma verdadeira taxação progressiva, controle de desigualdade e do consumo de ostentação e controles draconianos sobre a especulação imobiliária. Isso ocorreu em Cuba no início (embora desviado pela crescente dependência dos modelos soviéticos e pelo embargo americano) e está acontecendo em Caracas, de certa forma, hoje. Posso estar errado, mas não creio que o PT já teve uma posição ou a vontade de fazer uma reforma fiscal radical ou limitar os privilégios dos ricos.

Folha - O sr. argumenta que a "manhattanização" (verticalização) das favelas cariocas é parte de uma tendência mundial de falta de espaços nas metrópoles. Quais os problemas -sociais e ecológicos- que isso acarreta?

Davis - A densificação é positiva porque é ambientalmente eficiente. A densificação é ruim quando acompanhada com o espalhamento e a destruição do espaço verde e dos pulmões da cidade. Rio e Istambul são exemplos fascinantes onde favelas baixas e "gecekondus" se tornaram arquipélagos de mini-Manhattans. Este é um desafio para planejadores e a arquitetura: a favela que almejam subir para o céu.

Os problemas são imensos, mas as oportunidades também. Todas as cidades precisam de um laboratório do futuro -um bairro onde crianças, poetas e utopistas possam brincar com o futuro. O Rio poderia congelar os aluguéis e os valores de propriedade de uma favela, retirar a polícia e convidar os cidadãos a perseguir seus sonhos. Uma favela convertida em estudo de caso, em que os arquitetos e urbanistas entram e saem, mas deixam o poder de decisão nas mãos dos moradores. Com o tempo, as pessoas vão desenvolver fantásticas soluções e projetos, que os outros podem repetir ou melhorar. Talvez até os ricos sejam tentados a se mudar de seus complexos fortificados.

Folha - De acordo com o sr., o racismo teve um papel importante na definição sobre quem mora onde. Qual é a importância da discriminação racial para a "favelização"?

Davis -A raça, sempre. Mas as favelas, precisamente por causa de sua energia inter-racial e intercultural, são os dínamos de nossa cultura planetária. Em Los Angeles, as indústrias da música e da moda mantêm espiões nos guetos e "barrios" para identificar as tendências que irão eventualmente se espalhar para os subúrbios e as classes médias. Além disso, a sensibilidade da diáspora negra fornece uma estrutura de sentimento para a juventude pobre urbana (e muitos dos mais ricos) em cidades de quase todos os lugares. As favelas e cortiços são incrivelmente locais e paroquiais, mas também são universais.

In Memoriam Mike Davis (1942-2022) Estudioso-ativista, historiador pioneiro da classe trabalhadora norte-americana e crítico do aparato econômico, político e militar.

Fonte: Entrevista a Fabio Maisonnave para a Folha de S.Paulo em 26/03/2006 https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2603200606.htm

 

domingo, 14 de maio de 2023

Neuroplasticidade infantil

"Cada canto do cérebro fala com os outros, as crianças até dois anos vivenciam sinestesia: sintam cheiros de cores, ouçam sons de cheiros, vejam cores em melodias.

A gente vai crescendo e, como quem segue marcas de pneu numa estrada de terra, vai se apegando a certos trajetos. 

Enquanto o cérebro infantil é um campo aberto em que se pode ir pra qualquer lado –e invariavelmente pra vários ao mesmo tempo–, o cérebro adulto fixa suas malhas ferroviária e rodoviária, constrói sólidas estradas e viadutos por onde os pensamentos irão seguir pelo resto da vida. 

Amadurecer é um profundo processo de emburrecimento."

(Antonio Prata, Folha de S.Paulo 14/5/2023)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Domingo não vi nada na TV...


 

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Carro, o pior investimento do mundo

"Não se nasce Amsterdam, torna-se Amsterdam." (Simone de Beaucyclete)


(Por Leão Serva, 26/09/2016 na Folha de S.Paulo)

Quinta-feira (22) foi o "Dia Mundial Sem Carro", mas os congestionamentos não diminuíram. O uso do automóvel para deslocamentos nas grandes cidades é uma burrada imune aos alertas, como o cigarro, que resistiu até o fim do século 20 às evidências de que causa câncer. A propaganda de carros continua oferecendo virilidade e glamour, enquanto entrega congestionamento, estresse, doenças e aquecimento global.

É por isso mesmo surpreendente ver que segue constante o percentual das pessoas que dizem reduzir de alguma forma o uso do carro. Desde a pioneira pesquisa feita pelo sociólogo Antônio Lavareda para o guia "Como Viver em São Paulo Sem Carro" (2012) até o levantamento divulgado pelo Ibope na semana passada, os números estão constantes em torno de 50%. Ou seja: metade dos moradores da maior cidade do Brasil buscam jeitos de usar menos o automóvel.

Paulistanos deixam carro em casa

Há muitas razões para isso. Se uma pessoa pensar direito não usará carro próprio para se locomover. Em primeiro lugar, tem a irracionalidade do próprio hardware: ele gasta cerca de 95% do combustível para levar a si mesmo. Faça a conta: um veículo médio pesa cerca de 1,5 mil quilos. E o motorista, 75kg (5%). E os carros levam geralmente só uma pessoa. Quer coisa mais irracional?

A loucura é ainda maior se pensarmos no uso que fazemos do automóvel. Os usuários em São Paulo andam em média 20 km por dia, em viagens de duas horas (os números não são muito diferentes em outras grandes cidades). As demais 22 horas do dia, o carro dorme (92% do tempo). Calcule se o preço de compra fosse investido: você admitiria que seu banco pagasse juros apenas por duas horas do dia? É por isso que uma empresa financeira norte-americana, Morgan Stanley, chamou o carro de "o ativo mais mal utilizado do planeta".

Quer mais? Os bancos não pagam juros apenas por duas horas do dia. Em verdade, remuneram os investimentos por todos os 365 dias do ano. Então, se você investe o valor do carro, digamos R$ 40 mil, depois de um ano pode ter algo como R$ 45 mil. Mas se você comprar um carro, doze meses depois ele vale apenas cerca de R$ 32 mil.

Além de perder 20%, anualmente o "possante" ainda custa mais. O IPVA, imposto obrigatório, custa em torno de 2,5% do valor do veículo (R$ 1 mil para nosso exemplo); o seguro custará algo em torno de 4% (R$ 1.600 mil). E, infelizmente, carros precisam de manutenção, cerca de 3% do custo do veículo: some mais R$ 1.200 mil. Ops: só para existir, o veículo já está custando quase 10% do preço, além da desvalorização de 20%. Ou seja, se o banco paga 15% sobre o investimento, o carro cobra 30%...

De todos os custos associados ao uso do automóvel, talvez os mais absurdos sejam os indiretos: os incentivos fiscais que os governos dão para beneficiar quem usa carros. Em um artigo publicado no site "The Atlantic", Edward Humes calcula que o custo da gasolina deveria ser cinco vezes maior que o atual (no Brasil, a diferença é subsidiada). Veja ainda quanto sua prefeitura gasta com construção de pontes e avenidas, asfaltamento de ruas, hospitais para vítimas de doenças relacionadas ao uso do carro

Os governos usam dinheiro de todos para agradar os donos de automóveis, geralmente mais ricos. É isso que torna mais lenta a redução do uso dos carros particulares nas grandes cidades.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Sobre as Eleições 2022

 "Quem vota em político que libera armas
também puxa o gatilho."

(Flávia Boggio, 8/9/22)

domingo, 12 de junho de 2022

Crônica que gostaria de ter escrito (1)

Ricardo Araújo Pereira - 12/06/2022


Se eu tiver de indicar o ponto em que as coisas começaram a correr mal, diria que foi quando o caixa do supermercado me perguntou:

"Deseja um saco?"

Como vim a verificar mais tarde, é uma questão que a maior parte das pessoas não considera problemática, mas tenho uma opinião diferente.

"Não desejo. Mas quero."

"Como assim?"

"Perguntou se eu desejava um saco. Não creio que possa dizer que eu desejo um saco. Eu quero um saco. Mas desejar parece-me um verbo demasiado forte."

"Ora essa. Por quê?"

"Julgo que não é possível desejar um saco. A menos que se sofra de uma patologia invulgar. A ideia de desejar um saco tem uma óbvia sugestão libidinosa que é francamente perturbadora. Eu limito-me a querer um saco."

"Disparate. Desejar e querer são em larga medida sinônimos. Claro que ambos têm várias acepções. Mas mesmo a que assinalou, a da atração física, é comum aos dois. Talvez o verbo querer até seja mais vezes usado nesse contexto específico. Repare que o conhecido soneto de Camões, que começa com o verso 'Amor é fogo que arde sem se ver', diz, a certa altura: 'É um não querer mais que bem querer'. Viu? O poeta opta pelo verbo querer. E não há ocorrências do verbo desejar no poema."

Atrás de mim formou-se uma fila que começava a impacientar-se. Um senhor que tinha o carrinho de compras cheio resolveu intervir:

"Escutem, não há problema. Eu não sei se este senhor deseja um saco ou se quer um saco. Em qualquer dos casos, o melhor é dar-lhe, que eu tenho congelados no carrinho."

E chegou o gerente.

"O que se passa?"

Respondi eu:

"Este funcionário perguntou-me se eu desejava um saco. À frente de toda a gente. Estão ali crianças e tudo."

"E o senhor não deseja um saco?"

"Não. Talvez tenha acontecido uma vez ou duas, durante a adolescência, mas na adolescência tudo é motivo de desejo, como sabe. Até um saco. Eram outros tempos. Agora eu quero um saco."

"Mas desejar e querer é igual", disse o caixa.

"Creio que compreendo o problema", disse o gerente. "Será justo dizer que o senhor precisa de um saco?"

"Julgo que sim."

O funcionário do caixa interveio de novo:

"Não faz sentido. Sobretudo à luz do tema 'Como a abelha/ Necessita de uma flor/ Eu preciso de você', de Roberto Carlos."

Era bem observado. Por isso vim embora com as compras na mão.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A política está de mau humor

E isso até seria cômico, se não fosse trágico

(Por Lygia Maria, na Folha de S.Paulo em 21/02/2022)

Uma das piores consequências da polarização político-ideológica é a perda do senso de humor. Nem falo de piadas preconceituosas ou de baixo calão. Falo da ironia fina, dos trocadilhos, dessa atividade linguística que torna a vida mais palatável e que também nos faz pensar. Você, caro leitor, já deve ter passado por isto ultimamente: soltou um chiste inofensivo e acabou soterrado por problematizações.

Há séculos filósofos falam sobre o riso. Freud disse que o humor é um mecanismo de economia de energia psíquica: obtemos prazer, em vez de sofrer, em situações ruins. Para Nietzsche e Bataille, o humor possibilita formas de pensamento não ferrenhamente apegadas à razão: já que ela, apenas, é incapaz de lidar com o sofrimento existencial. Daí surgem as comparações entre o humor, a arte e o erotismo.

A poesia é uma erotização da linguagem, já que retira dela sua função meramente utilitária: a comunicação. Da mesma forma, o erotismo arrefece a função utilitária do sexo: a procriação. Estetizar é erotizar, e vice-versa. Os trocadilhos, os duplos sentidos, a ironia, toda essa fricção de palavras e ideias díspares causam ruídos na comunicação, mas produzem novas formas de pensar e de sentir a realidade. Por isso, o humor é uma forma do ser humano se tratar como obra de arte. Ou seja, de escaparmos da objetificação, de nos aceitarmos como falhos, incompletos, e, assim, produzir prazer físico, estético e mental.

Não é à toa, portanto, que a polarização ideológica está minando nossa capacidade de rir e de fazer rir. Cada lado tem políticos de estimação, seres perfeitos, quase deidades. Seus fiéis seguidores viram sacerdotes à caça de pecados não apenas dos inimigos, mas dos próprios pares. Claro que o humor não cabe nisso. Afinal, com ele, ressaltamos nossa condição mais humana e menos divina, percebemos nossas contradições, idiossincrasias, e essa postura é um perigo para quem se vê como detentor da verdade e da bondade.

(Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/lygia-maria/2022/02/a-politica-esta-de-mau-humor.shtml)

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Boa história, cheia de games, hackers e invenções:

"A História e o Legado do Atari" 

https://globoplay.globo.com/v/9454259/

"Easy to learn, hard to master" ;-)

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Definhamento pandêmico - e o fluxo necessário

 THE NEW YORK TIMES  CORONAVÍRUS 21/04/2021 

Há um nome para seu mal-estar na pandemia: chama-se 'definhamento'

Um estado mental às vezes negligenciado pode embotar sua motivação e seu foco; e pode ser a emoção predominante em 2021

Adam Grant Psicólogo organizacional em Wharton, autor de "Think Again: The Power of Knowing What You Don’t Know" e apresentador do podcast WorkLife na TED

No princípio eu não reconheci os sintomas que todos tínhamos em comum. Amigos diziam que estavam tendo dificuldade para se concentrar. Colegas relatavam que mesmo com as vacinas à vista eles não estavam entusiasmados com 2021. Uma parente ficava acordada até tarde para assistir a "National Treasure" de novo, apesar de já conhecer o filme de cor. E, em vez de pular da cama às 6h, eu estava ficando lá até as 7h, jogando "Palavras com Amigos". 

Não era esgotamento —nós ainda tínhamos energia. Não era depressão —não nos sentíamos impotentes. Apenas nos sentíamos um pouco sem alegria e sem objetivo. Mas existe um nome para isso: definhamento. 

É um sentimento de estagnação e vazio. Parece que você está se arrastando pelos dias, vendo sua vida através de uma janela embaçada. E poderá ser a emoção predominante em 2021.

Enquanto cientistas e médicos trabalham para tratar e curar os sintomas físicos da Covid persistente, muitas pessoas estão lutando com a persistência emocional da pandemia. Ela pegou alguns de nós despreparados, quando o medo e a dor intensos do ano passado se dissiparam. 

Nos primeiros dias incertos da pandemia, é provável que o sistema de detecção de ameaças do seu cérebro —chamado amígdala— estivesse em alerta máximo para lutar ou fugir. Conforme você aprendeu que as máscaras ajudavam a nos proteger —mas esfregar embalagens não—, provavelmente desenvolveu rotinas que reduziram sua sensação de temor. Mas a pandemia se arrastou, e o estado agudo de angústia deu lugar a uma condição de abatimento crônico. 

Na psicologia, pensamos em saúde mental em um espectro que vai da depressão ao florescimento. O florescimento é o apogeu do bem-estar: você tem um forte sentido de significado, domínio e importância para os outros. A depressão é o vale do mal-estar: você se sente pesado, esgotado e inútil.

O definhamento é o estado médio negligenciado da saúde mental. É o vazio entre depressão e florescimento —a ausência de bem-estar. Você não tem sintomas de doença mental, mas também não está num quadro de saúde mental. Você não funciona com plena capacidade. O definhamento embota sua motivação, perturba sua capacidade de se concentrar e triplica a probabilidade de você regredir no trabalho. Ele parece ser mais comum que a depressão completa —e, de certas maneiras, pode ser um maior fator de risco para a doença mental.

O termo foi cunhado por um sociólogo chamado Corey Keyes, que ficou impressionado pelo fato de muitas pessoas que não estavam deprimidas também não estarem prosperando. Sua pesquisa sugere que as pessoas com maior probabilidade de experimentar grande depressão e transtornos de ansiedade na próxima década não são aquelas que têm esses sintomas hoje. São as pessoas que estão definhando neste momento.

E novas evidências de profissionais de saúde da pandemia na Itália mostram que as que estavam definhando na primavera de 2020 tinham três vezes maior inclinação que seus pares a ser diagnosticadas com transtorno de estresse pós-traumático. 

Parte do perigo é que quando você está definhando pode não perceber o embaçamento do prazer ou a diminuição do impulso. Você não se pega escorregando lentamente para a solidão; você é indiferente à própria indiferença. Quando alguém não pode ver o próprio sofrimento, não busca ajuda ou faz alguma coisa para se ajudar. 

Mesmo que você não esteja definhando, provavelmente conhece pessoas que estão. Compreender melhor isso pode ajudar você a ajudá-las. 

UM NOME PARA O SEU SENTIMENTO 

Os psicólogos acham que uma das melhores estratégias para lidar com as emoções é lhes dar nomes. Na última primavera [outono no hemisfério Sul], durante a angústia aguda da pandemia, a postagem mais viral na história da Harvard Business Review foi um artigo que descreveu nosso desconforto coletivo como sofrimento. 

Juntamente com a perda de pessoas amadas, estávamos lamentando a perda da normalidade. "Sofrimento." Isso nos deu um vocabulário conhecido para entender o que parecia uma experiência desconhecida. 

Embora não tivéssemos enfrentado uma pandemia antes, a maioria das pessoas tinha experimentado perdas. Isso nos ajudou a cristalizar lições de nossa antiga resiliência —e ganhar confiança em nossa capacidade de enfrentar a adversidade atual. 

Ainda temos muito a aprender sobre o que causa definhamento e como curá-lo, mas nomeá-lo pode ser um primeiro passo. Pode nos ajudar a desembaçar a visão, dando-nos uma janela mais clara para o que era uma experiência borrada. Pode nos lembrar de que não estamos sós: o definhamento é comum e compartilhado. 

E pode nos dar uma resposta socialmente aceitável para "Como você está?".

Em vez de dizermos "Ótima!" ou "Bem", imagine se respondêssemos: "Honestamente, estou definhando". Seria um contrapeso revigorante para a positividade tóxica —essa pressão tipicamente americana para estarmos animados o tempo todo. 

Quando você acrescenta "definhamento" ao seu vocabulário, começa a percebê-lo ao seu redor. Ele aparece quando você se sente desanimado com sua curta caminhada à tarde. Está na voz de seus filhos quando você lhes pergunta como foi a escola online. Está nos "Simpsons" cada vez que um personagem diz "Meh".

No último verão, a jornalista Daphne K. Lee tuitou sobre uma expressão chinesa que significa "procrastinação vingativa na hora de dormir". Ela a descreveu como ficar acordada até tarde da noite para recuperar a liberdade que perdemos durante o dia.

Eu comecei a me perguntar se não é tanto uma retaliação contra a perda de controle quanto um ato de desafio silencioso contra o definhamento. É uma busca por felicidade em um dia árido, por conexão em uma semana solitária ou por objetivo em uma pandemia eterna.

ANTÍDOTO PARA O DEFINHAMENTO

Então o que podemos fazer a respeito disso? Um conceito chamado "fluxo" pode ser um antídoto para o definhamento. Fluxo é aquele fugidio estado de absorção em um desafio importante ou uma ligação momentânea, em que sua sensação de tempo, lugar e self se dilui.

Durante os primeiros dias da pandemia, o melhor previsor de bem-estar não era otimismo ou atenção plena —era o fluxo. As pessoas que mergulhavam mais em seus projetos conseguiam evitar o definhamento e mantinham sua felicidade pré-pandêmica.

Um jogo de palavras de manhã cedo me projeta no fluxo. Uma sessão de Netflix na madrugada às vezes também faz o truque —ela o transporta para dentro de uma história em que você se sente atraído pelos personagens e preocupado com o bem-estar deles.

Enquanto encontrar novos desafios, experiências agradáveis e trabalho significativo são possíveis remédios para o definhamento, é difícil encontrar fluxo quando você não consegue se concentrar.

Isso já era um problema muito antes da pandemia, quando as pessoas ficavam verificando o e-mail 74 vezes por dia e mudando de tarefas a cada dez minutos. 

No último ano, muitas pessoas também estiveram lutando com interrupções desse tipo com crianças dentro de casa, colegas do mundo todo e chefes 24 horas por dia. "Meh." 

A atenção fragmentada é inimiga do envolvimento e da excelência. Em um grupo de cem pessoas, somente duas ou três serão capazes de dirigir e memorizar informação ao mesmo tempo sem que seu desempenho piore em uma ou nas duas tarefas. Os computadores podem ser feitos para processamento paralelo, mas os seres humanos são melhores em processamento serial. 

TEMPO SEM INTERRUPÇÕES 

Isso significa que precisamos definir limites. Anos atrás, uma grande empresa de software da Índia testou uma política simples: nada de pausas na terça, quarta e quinta-feiras antes do meio-dia. Quando os engenheiros cuidaram do limite eles próprios, 47% tiveram produtividade acima da média. Mas, quando a companhia definiu um tempo de silêncio como política oficial, 65% conseguiram produtividade acima da média. 

Produzir mais não foi melhor só para o desempenho no trabalho; sabemos hoje que o fator mais importante na alegria e motivação diárias é a sensação de progresso. 

Não acho que haja algo mágico em terça, quarta e quinta antes do meio-dia. A lição dessa ideia simples é tratar blocos de tempo ininterrupto como tesouros a se proteger. Eles eliminam distrações constantes e nos dão liberdade para nos concentrarmos. Podemos encontrar alívio em experiências que captam toda a nossa atenção. 

PEQUENO OBJETIVO 

A pandemia foi uma grande perda. Para transcender o definhamento, experimente começar com pequenas vitórias, como o minúsculo triunfo de descobrir um "quem fez algo" ou a emoção de encaixar uma palavra de sete letras. Um dos caminhos mais claros para o fluxo é uma dificuldade que se supera por pouco: um desafio que força suas capacidades e enaltece sua decisão. 

Isso significa encontrar tempo diário para se concentrar em um desafio que é importante para você —um projeto interessante, um objetivo válido, uma conversa significativa. Às vezes, é um pequeno passo na direção de redescobrir parte da energia e do entusiasmo que lhe fizeram falta durante todos esses meses. 

O definhamento não está apenas em nossa cabeça —está em nossas circunstâncias. Você não pode curar uma cultura doente com ataduras pessoais. Ainda vivemos em um mundo que normaliza os desafios de saúde física, mas estigmatiza os desafios de saúde mental. Ao rumarmos para uma nova realidade pós-pandêmica, é hora de repensar nossa compreensão da saúde mental e do bem-estar. 

"Não deprimido" não significa que você não sente dificuldades. "Não esgotado" não significa que você está totalmente ligado. Ao admitir que tantas pessoas estão definhando, podemos começar a dar voz ao desespero silencioso e iluminar um caminho para sair do vazio.

terça-feira, 23 de março de 2021

Da Escola dos Doutores do Alegria

 “É pela prática de arte que norteamos nossas ações e o palhaço é nosso território, nossa expressão, o ser e o estar. 

Falar em linguagem do palhaço é falar da sombra, da presença, da verdade, do fingimento, da crueldade, da crítica, da ingenuidade, do medo, da irreverência; na repetição e no improviso. 

Na graça e na tragédia nos constituímos. E tolo seria enfrentarmos tais traços sem um treino em arte.

O palhaço como linguagem não existe sem o outro, seja o outro uma paisagem, um objeto, um alguém, um sentimento. 

No seu reflexo, no seu comentário, na sua estrutura, é quase sua razão de existir.”

Conheça em https://doutoresdaalegria.org.br